TEXTO DA CURADORIA

Terras em transe

por André Dib

Meio ambiente e criação cinematográfica estão juntos novamente na Mostra Ambiental do Recife. A partir de 21 filmes, olhamos para o mundo com mais dúvidas do que certezas, cientes de que posturas, discursos ou estéticas estabelecidas não bastam ao agora: novos tempos pedem novas formas, respostas e questionamentos, ao mesmo tempo em que direitos básicos e princípios éticos precisam ser defendidos para além de qualquer relativização.

 

Nesse contexto retorna como filme de urgência um ícone do cinema brasileiro: “Terra em Transe”, que volta a ser visto, revisto e debatido em todo o país, em sessões especiais com cópia digital restaurada. No Recife, a mais importante obra de Glauber Rocha poderá ser assistida em ótimas condições, no Cinema São Luiz, quase 50 anos depois de ter sido exibido em seu antigo vizinho, o Cinema Moderno, em maio de 1968 (e no mês seguinte, no Cine Coliseu). O curta “Em busca da Terra sem males” abre a sessão ventilando possibilidades para uma vida futura. Lançado no último Festival de Berlim, o novo trabalho de Anna Azevedo reafirma o cinema como um poderoso ponto de encontro entre poética e política dos corpos, ao olhar para o cotidiano de jovens indígenas que vivem ao redor do Rio de Janeiro.

 

A desumanidade que emana do descompasso entre políticas públicas, leis de mercado e sociedade de consumo está exposta nos filmes “Dia de Pagamento” e “Cidades Fantasmas”. No primeiro, a pernambucana Fabiana Moraes vai ao sertão pernambucano documentar o impacto social, econômico e ambiental das obras de transposição do São Francisco para os moradores de Rio da Barra, vila de Sertânia. Vencedor do último Festival É Tudo Verdade, em “Cidades Fantasmas” o gaúcho Tyrell Spencer revisita cidades abandonadas no Chile, Brasil, Colômbia e Argentina, que já foram prósperas e hoje são terra devastada, sobrevivendo apenas na memória de antigos moradores.

 

Em “Nanã”, novo filme da produtora Jacaré Vídeo (que em 2016 participou da 2ª MARÉ com a série É Por Aí), o diretor Rafael Amorim denuncia uma grave realidade. Sua abordagem ficcional busca nas entranhas do mangue a transcendência e ancestralidade necessárias para prosseguir em meio à violência disfarçada em discursos de progresso na Ilha de Tatuoca, Suape, mata sul pernambucana. Há um diálogo interessante entre “Nanã” e o longa “O botão de pérola”, que estabelece conexões aparentemente aleatórias, da pré-história à exploração intergalática, tendo a água como elemento comum e universal. A relação com a água pautou os arborígenes da Patagônia, massacrados pelos europeus; assim como os milhares de desaparecidos na ditadura militar, lançados ao mar em barras de ferro. Em sua visão poética, Patricio Guzmán (“Nostalgia da Luz”) compõe uma ode cósmica ao conjugar cenas da natureza, depoimentos, imagens de arquivo e da mais pura fantasia.

Cinema São Luiz, Jardim Botânico, UFPE, Ilha de Deus: exibições, oficinas e debates em diferentes espaços promovem a circulação de ideias, sons e imagens em movimento que, esperamos, provoquem novas visões, estremecimentos e reconciliações.

FILMES EM EXIBIÇÃO

Confira abaixo os filmes participantes da Mostra.

LONGA

TERRA EM

TRANSE

(Brasil, 1967, fic, pb, 35mm, 111’)

de Glauber Rocha

Em Eldorado, país fictício da América do Sul, Paulo Martins, o jornalista poeta, oscila entre diversas forças políticas em luta pelo poder.

EXIBIÇÕES